comportamento category image

Mulheres Negras em Pauta


31.jan.16 | 2 Comentários

Há um tempo atrás, uma preta maravilhosa postou em um grupo sobre Feminismo Negro se seria interessante nos encontrarmos para debatermos algumas pautas que nos contempla. A adesão foi ótima, todas adoraram a ideia e então começou-se a organização. Com lugar, horário e dia definidos democraticamente, nossa roda de conversa já tinha dia e local marcado, era só aguardar ansiosa. E então, eu fui convidada por uma preta-mãe maravilhosa a mediar o debate sobre Maternidade Compulsória, eu aceitei com muito gosto, mas muito receosa de encarar tamanha responsabilidade. Mas mesmo com medo, eu aceitei o desafio.

DSCN0184

Os temas da roda de debate foram decididos por meio de voto e nosso norte foi a Mulher Negra. Discutimos de quais formas os assuntos abordados atingiam essa mulher. O interessante de se sair da internet e ir debater frente a frente é  ver as experiências sendo contadas repetidamente e as reações serem únicas. As histórias das mulheres negras causam comoção e é isso que me chama atenção. Porque muitas pessoas, insistem em ignorar os problemas que estão no nariz delas? Olhar para a minha semelhante e compartilhar além de uma história, uma lágrima, é algo muito poderoso e mágico. Porque criamos um vínculo, a minha história é a história dela.

DSCN0177

DSCN0180

E é interessante observar a dificuldade que temos em lidar com determinados assuntos. O colorismo, por exemplo, é um assunto difícil para muitas. Tantos as negras de pele clara, quanto as de pele escura enfrentam dificuldades em lidar bem com esse assunto. Por um lado temos as negras que nunca tiveram uma identidade, por serem claras de mais para serem negras e escuras demais para serem brancas e de outro lado, temos as pretas retintas que nunca puderam se embranquecer, que sempre sofreram com o primeiro impacto do racismo. E isso é um ponto que precisa ser discutido, debatido, compreendido, para que não fiquemos ainda mais separadas. É preciso entender as especifidades de ambos os lados para que possamos seguir juntas na luta, que é uma só.

DSCN0181

DSCN0176

E a conclusão que tiro de tudo isso é que nossas pautas estão intimamente interligadas e precisam ser debatidas com urgência. A carência de passar uma vida inteira sozinha – sem amigos, nem companheiros e muitas vezes sem familiares, que perdemos na guerra do tráfico ou que nos abandonam – nos deixam mais suscetíveis a relacionamentos abusivos, a maternidade compulsória, e o racismo e a desigualdade social não nos permite ascender socialmente, estamos estagnadas, porque precisamos amadurecer rapidamente, para cuidar da casa e dos irmãos e logo que somos hiperssexualizadas, nos tornamos mãe solo, que precisa trabalhar para sustentar o filho, que não tem tempo de cuidar exclusivamente da cria e que sofre, com um sistema de saúde e educação precários. As mulheres negras estão sofrendo, há muito e não vamos mais tolerar que sejamos invisibilizadas. Vamos ocupar os lugares que é nosso, por direito.

A revolução acontece quando paro de apontar o meu dedo e estendo a minha mão.

Gostaria de agradecer imensamente a Adriana, que teve a maravilhosa ideia de nos reunir nesse sábado tão gostoso. Agradecer ao sol ~ risos, “good vibes” ~ mas sério, agradecer ao sol, que depois de longos dias chuvosos nos abençoou nesse momento tão importante. Agradecer a Márcia Gêge por ter me convidado para mediar o debate sobre maternidade compulsória e agradecer à todas que puderam comparecer. Foi uma tarde maravilhosa e espero que possamos nos reunir muitas outras vezes! Que a nossa união seja eterna e que possamos sempre nos lembrar que, não estamos sozinhas.

comportamento category image

Mulheres Negras – a minha luta é por vocês


24.jan.16 | 2 Comentários

Estamos fragilizadas, nossa união está por um fio. Nos querem mal, nos querem longe, nos querem sós. Mas resistimos e nos reerguemos. Porque somos fortes, somos irmãs, somos unidas.

Eles não querem que tenhamos voz. Mas nós temos.

Eles não querem que tenhamos vontades. Mas nós temos.

Eles querem que a gente sinta medo.

Eles querem nos acuar.

Querem nos fazer desistir.

Quando eu comecei a estudar sobre Feminismo Negro, automaticamente senti um enjoo muito forte ao ver que todos os abusos que eu sofri e sofro, como mulher negra, continuavam tão vivos em mim, quanto em minhas irmãs. Conversar com uma, duas, ou até um grupo de mulheres negras é como conversar de frente para o espelho e ver em sua semelhante a história se repetir, como um ciclo vicioso. E quando tomei consciência disso, senti que precisava fazer alguma coisa, eu não poderia mais me abster, porque me manter em silêncio só faria com que o meu sofrimento e o de todas as mulheres negras aumentassem cada vez mais. Por isso, procurei ajuda, apoio naquelas que sabiam exatamente o que eu estava passando, aquelas que sentiam na pele a luta e a dor.

Eu me entristeço quando brigamos, porque eu sei que é isso o que todos querem, o que todos esperam. Me entristeço, quando vejo uma irmã se entristecer. Por que a luta dela, é a minha luta. Não quero vê-la só, não quero vê-la se calar, quero que ela seja livre, que ela alce voo e fuja para onde e quando quiser.

Não quero e não vou me permitir que ataquem mulheres negras, não que eu queira passar a mão na cabeça de todas e aceitar as besteiras que às vezes, uma ou outra faz, por que faz, não por ser mulher negra, mas por ser ser humano, todos estamos suscetíveis à erros. Quem nasceu 100% desconstruído, que atire a primeira pedra.

Não quero e não vou permitir que ataquem mães negras, que sofrem diariamente com a castração do sistema e com o racismo nosso de cada dia. Nem lésbicas, gordas, que possuam algum tipo de necessidade especial. São todas minhas e mexeu com uma, mexeu com todas.

Ao invés disso, eu vou me desculpar, vou conversar, procurar ajudar. Porque todos os dedos já estão apontados para nós. Quero agora que pelo menos alguns dedos deem espaço às mãos que ajudam e a braços que confortam.

A minha luta é por vocês.

ME SIGA NO INSTAGRAM @CAMISANTOSBLOG