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Mulheres Negras em Pauta


31.jan.16 | 2 Comentários

Há um tempo atrás, uma preta maravilhosa postou em um grupo sobre Feminismo Negro se seria interessante nos encontrarmos para debatermos algumas pautas que nos contempla. A adesão foi ótima, todas adoraram a ideia e então começou-se a organização. Com lugar, horário e dia definidos democraticamente, nossa roda de conversa já tinha dia e local marcado, era só aguardar ansiosa. E então, eu fui convidada por uma preta-mãe maravilhosa a mediar o debate sobre Maternidade Compulsória, eu aceitei com muito gosto, mas muito receosa de encarar tamanha responsabilidade. Mas mesmo com medo, eu aceitei o desafio.

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Os temas da roda de debate foram decididos por meio de voto e nosso norte foi a Mulher Negra. Discutimos de quais formas os assuntos abordados atingiam essa mulher. O interessante de se sair da internet e ir debater frente a frente é  ver as experiências sendo contadas repetidamente e as reações serem únicas. As histórias das mulheres negras causam comoção e é isso que me chama atenção. Porque muitas pessoas, insistem em ignorar os problemas que estão no nariz delas? Olhar para a minha semelhante e compartilhar além de uma história, uma lágrima, é algo muito poderoso e mágico. Porque criamos um vínculo, a minha história é a história dela.

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E é interessante observar a dificuldade que temos em lidar com determinados assuntos. O colorismo, por exemplo, é um assunto difícil para muitas. Tantos as negras de pele clara, quanto as de pele escura enfrentam dificuldades em lidar bem com esse assunto. Por um lado temos as negras que nunca tiveram uma identidade, por serem claras de mais para serem negras e escuras demais para serem brancas e de outro lado, temos as pretas retintas que nunca puderam se embranquecer, que sempre sofreram com o primeiro impacto do racismo. E isso é um ponto que precisa ser discutido, debatido, compreendido, para que não fiquemos ainda mais separadas. É preciso entender as especifidades de ambos os lados para que possamos seguir juntas na luta, que é uma só.

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E a conclusão que tiro de tudo isso é que nossas pautas estão intimamente interligadas e precisam ser debatidas com urgência. A carência de passar uma vida inteira sozinha – sem amigos, nem companheiros e muitas vezes sem familiares, que perdemos na guerra do tráfico ou que nos abandonam – nos deixam mais suscetíveis a relacionamentos abusivos, a maternidade compulsória, e o racismo e a desigualdade social não nos permite ascender socialmente, estamos estagnadas, porque precisamos amadurecer rapidamente, para cuidar da casa e dos irmãos e logo que somos hiperssexualizadas, nos tornamos mãe solo, que precisa trabalhar para sustentar o filho, que não tem tempo de cuidar exclusivamente da cria e que sofre, com um sistema de saúde e educação precários. As mulheres negras estão sofrendo, há muito e não vamos mais tolerar que sejamos invisibilizadas. Vamos ocupar os lugares que é nosso, por direito.

A revolução acontece quando paro de apontar o meu dedo e estendo a minha mão.

Gostaria de agradecer imensamente a Adriana, que teve a maravilhosa ideia de nos reunir nesse sábado tão gostoso. Agradecer ao sol ~ risos, “good vibes” ~ mas sério, agradecer ao sol, que depois de longos dias chuvosos nos abençoou nesse momento tão importante. Agradecer a Márcia Gêge por ter me convidado para mediar o debate sobre maternidade compulsória e agradecer à todas que puderam comparecer. Foi uma tarde maravilhosa e espero que possamos nos reunir muitas outras vezes! Que a nossa união seja eterna e que possamos sempre nos lembrar que, não estamos sozinhas.

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Mulheres Negras – a minha luta é por vocês


24.jan.16 | 2 Comentários

Estamos fragilizadas, nossa união está por um fio. Nos querem mal, nos querem longe, nos querem sós. Mas resistimos e nos reerguemos. Porque somos fortes, somos irmãs, somos unidas.

Eles não querem que tenhamos voz. Mas nós temos.

Eles não querem que tenhamos vontades. Mas nós temos.

Eles querem que a gente sinta medo.

Eles querem nos acuar.

Querem nos fazer desistir.

Quando eu comecei a estudar sobre Feminismo Negro, automaticamente senti um enjoo muito forte ao ver que todos os abusos que eu sofri e sofro, como mulher negra, continuavam tão vivos em mim, quanto em minhas irmãs. Conversar com uma, duas, ou até um grupo de mulheres negras é como conversar de frente para o espelho e ver em sua semelhante a história se repetir, como um ciclo vicioso. E quando tomei consciência disso, senti que precisava fazer alguma coisa, eu não poderia mais me abster, porque me manter em silêncio só faria com que o meu sofrimento e o de todas as mulheres negras aumentassem cada vez mais. Por isso, procurei ajuda, apoio naquelas que sabiam exatamente o que eu estava passando, aquelas que sentiam na pele a luta e a dor.

Eu me entristeço quando brigamos, porque eu sei que é isso o que todos querem, o que todos esperam. Me entristeço, quando vejo uma irmã se entristecer. Por que a luta dela, é a minha luta. Não quero vê-la só, não quero vê-la se calar, quero que ela seja livre, que ela alce voo e fuja para onde e quando quiser.

Não quero e não vou me permitir que ataquem mulheres negras, não que eu queira passar a mão na cabeça de todas e aceitar as besteiras que às vezes, uma ou outra faz, por que faz, não por ser mulher negra, mas por ser ser humano, todos estamos suscetíveis à erros. Quem nasceu 100% desconstruído, que atire a primeira pedra.

Não quero e não vou permitir que ataquem mães negras, que sofrem diariamente com a castração do sistema e com o racismo nosso de cada dia. Nem lésbicas, gordas, que possuam algum tipo de necessidade especial. São todas minhas e mexeu com uma, mexeu com todas.

Ao invés disso, eu vou me desculpar, vou conversar, procurar ajudar. Porque todos os dedos já estão apontados para nós. Quero agora que pelo menos alguns dedos deem espaço às mãos que ajudam e a braços que confortam.

A minha luta é por vocês.

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Ame quem tu és #BlogueirasNegraspelaConsciência


30.nov.15 | Nenhum Comentário

Outro dia estava batendo um papo em um grupo no facebook sobre representatividade na blogosfera e pensei no quanto seria bom que algumas blogueiras negras se juntassem para escrever nesse Novembro Negro. Foi quando decidimos criar a #hashtag #BlogueirasNegraspelaConsciência. Mas quando parei para pensar sobre o que escreveria, me peguei muito confusa, pois não conseguia organizar as ideias. O Feminismo Negro é algo totalmente novo para mim e alguns assuntos ainda me deixam extremamente desconfortável, assim como esse. Mas decidi sair da minha zona de conforto e finalmente falar sobre o que me incomoda, porque se há algo, que não podemos mais fazer, é nos manter caladas.

Quando me lembro da minha infância, me lembro do quanto eu adorava levar as bolinhas de gude de leite dos meninos da rua para casa, quem enchesse uma garrafa pet com mais bolinhas, ostentava com orgulho sua coleção. Mas eu também me lembro de todo o esforço feito para conseguir pular mais alto a cada vez que avançava o nível na arte de pular elástico. Me sentia mais orgulhosa ainda, quando conseguia pular mais alto que as meninas mais velhas. Em êxtase com tanta diversão, acabei não prestando a devida atenção a fatos que teriam reflexos irreversíveis, não só em minha vida, como também na de outras pessoas, mas que culpa teria uma criança que só queria brincar?

Houve um período da minha infância muito crítico em que eu era duramente julgada por não ser como uma amiga branca minha, ela havia se tornado parâmetro para tudo o que havia de bom e eu me sentia constantemente inferior por não conseguir alcançar a evolução dela. Essa minha amiga branca ao se tornar “um exemplo a ser seguido”, transformou minha vida em um inferno – ainda que indiretamente – no colégio, em casa e na roda dos amigos, por que toda vez que eu não conseguia “ser igual a ela”, eu era sentenciada há dias de dor e reclusão.

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Eu nunca entendi essa nossa diferença de pele, ninguém nunca havia me explicado isso e como ambas eram de periferia, eu achava que não havia diferença entre nós, achava que éramos iguais, eu nunca havia entendido porque todos queriam que eu fosse igual a ela. Não era isso que eu queria e me sentia extremamente mal por isso, porque se até minha mãe a usava como exemplo para algo bom e eu não queria ser igual, eu deveria ser mesmo muito má.

Conforme fui crescendo e as comparações aumentando, eu fui me incomodando cada vez mais com toda aquela situação, porque quanto mais essa minha amiga se tornava o “exemplo a ser seguido”, “o padrão aceitável”, eu me tornava cada vez mais a ovelha negra e isso tudo acarretou em dois comportamentos distintos. O primeiro foi que minha amiga começou a acreditar que era superior a mim e o fato de eu tentar me equiparar a ela, ela via como inveja e por outro lado, eu fui ficando cada vez mais revoltada, por fazer coisas das quais eu não tinha a mínima vontade só para que parassem de dizer que eu precisava ser igual a ela.  Até que um dia, no colégio, na hora do intervalo, ela soltou a frase: “Eu vou falar que gosto dessa cantora e a Camila vai dizer que gosta também, querem apostar?” E aquilo foi a gota d’água para mim, foi quando percebi o quanto ela podia ser corrompível e o quanto ela acreditava em toda aquela baboseira, de que as pessoas queriam e precisavam ser iguais a ela. Foi quando eu precisei dar um “basta” e dizer em alto e bom som, com lágrimas rolando pelo rosto que eu nunca seria igual ela, não porque não conseguisse, mas simplesmente porque não era o que eu queria. Eu me sentia extraordinária e queria mostrar quem eu era de verdade para o mundo. Uma garota educada, inteligente, criativa, entre outras coisas, eu não aceitaria viver na sombra de ninguém. E foi quando precisei interromper bruscamente nossa amizade. É claro que continuamos amigas, mas de uma forma diferente. Arrumei novos amigos, amigos esses que me aceitava do jeito que eu era e eu nunca me senti tão livre e tão amada por mim mesma.

E por isso eu digo, ame quem tu és e não deixe ninguém te comparar, você é inigualável, um ser humano único. Por mais que as pessoas digam “você precisa seguir esse padrão”, na verdade você não precisa não, você não precisa fazer nada que você não sinta vontade e não deixe ninguém te convencer do contrário. Não deixe ninguém te dizer o que você tem que ser ou fazer. E eu sei que esse processo é extremamente doloroso, falo com experiência de causa, mas a descoberta de si própria é altamente gratificante.

E muita gente pode pensar, “Mas o que toda essa história tem a ver com o feminismo negro?”. E na verdade tem tudo a ver. Quantas meninas negras não sofrem pressão diariamente, a cada segundo de suas vidas para se encaixarem em padrões? A mídia ta aí,  tentando a todo custo nos enfiar guela abaixo meninas dentro do “padrão aceito” meninas que possuem características em comum com essa minha amiga: branca, de cabelo liso e olhos claros. E a conclusão que chego depois de passar por tudo isso, é que o AMOR PRÓPRIO e a ACEITAÇÃO são a nossas únicas armas nesse processo de libertação.

Esse texto demorou muito para sair, porque muita coisa estava entalada em minha garganta há muito tempo. E eu gostaria de tê-lo postado no dia da Consciência Negra, mas tinha muita coisa que eu ainda não havia conseguido digerir. E se você quiser conferir os outros textos, segue os links:

Bonecas de Nó Negras – Nanatrice

Empoderamento é aceitação e não seguir padrão – Blog da Taya

Porque precisamos do Feminismo Negro – Naturalíssimas

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