Comportamento

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Ame quem tu és #BlogueirasNegraspelaConsciência


30.nov.15 | Nenhum Comentário

Outro dia estava batendo um papo em um grupo no facebook sobre representatividade na blogosfera e pensei no quanto seria bom que algumas blogueiras negras se juntassem para escrever nesse Novembro Negro. Foi quando decidimos criar a #hashtag #BlogueirasNegraspelaConsciência. Mas quando parei para pensar sobre o que escreveria, me peguei muito confusa, pois não conseguia organizar as ideias. O Feminismo Negro é algo totalmente novo para mim e alguns assuntos ainda me deixam extremamente desconfortável, assim como esse. Mas decidi sair da minha zona de conforto e finalmente falar sobre o que me incomoda, porque se há algo, que não podemos mais fazer, é nos manter caladas.

Quando me lembro da minha infância, me lembro do quanto eu adorava levar as bolinhas de gude de leite dos meninos da rua para casa, quem enchesse uma garrafa pet com mais bolinhas, ostentava com orgulho sua coleção. Mas eu também me lembro de todo o esforço feito para conseguir pular mais alto a cada vez que avançava o nível na arte de pular elástico. Me sentia mais orgulhosa ainda, quando conseguia pular mais alto que as meninas mais velhas. Em êxtase com tanta diversão, acabei não prestando a devida atenção a fatos que teriam reflexos irreversíveis, não só em minha vida, como também na de outras pessoas, mas que culpa teria uma criança que só queria brincar?

Houve um período da minha infância muito crítico em que eu era duramente julgada por não ser como uma amiga branca minha, ela havia se tornado parâmetro para tudo o que havia de bom e eu me sentia constantemente inferior por não conseguir alcançar a evolução dela. Essa minha amiga branca ao se tornar “um exemplo a ser seguido”, transformou minha vida em um inferno – ainda que indiretamente – no colégio, em casa e na roda dos amigos, por que toda vez que eu não conseguia “ser igual a ela”, eu era sentenciada há dias de dor e reclusão.

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Eu nunca entendi essa nossa diferença de pele, ninguém nunca havia me explicado isso e como ambas eram de periferia, eu achava que não havia diferença entre nós, achava que éramos iguais, eu nunca havia entendido porque todos queriam que eu fosse igual a ela. Não era isso que eu queria e me sentia extremamente mal por isso, porque se até minha mãe a usava como exemplo para algo bom e eu não queria ser igual, eu deveria ser mesmo muito má.

Conforme fui crescendo e as comparações aumentando, eu fui me incomodando cada vez mais com toda aquela situação, porque quanto mais essa minha amiga se tornava o “exemplo a ser seguido”, “o padrão aceitável”, eu me tornava cada vez mais a ovelha negra e isso tudo acarretou em dois comportamentos distintos. O primeiro foi que minha amiga começou a acreditar que era superior a mim e o fato de eu tentar me equiparar a ela, ela via como inveja e por outro lado, eu fui ficando cada vez mais revoltada, por fazer coisas das quais eu não tinha a mínima vontade só para que parassem de dizer que eu precisava ser igual a ela.  Até que um dia, no colégio, na hora do intervalo, ela soltou a frase: “Eu vou falar que gosto dessa cantora e a Camila vai dizer que gosta também, querem apostar?” E aquilo foi a gota d’água para mim, foi quando percebi o quanto ela podia ser corrompível e o quanto ela acreditava em toda aquela baboseira, de que as pessoas queriam e precisavam ser iguais a ela. Foi quando eu precisei dar um “basta” e dizer em alto e bom som, com lágrimas rolando pelo rosto que eu nunca seria igual ela, não porque não conseguisse, mas simplesmente porque não era o que eu queria. Eu me sentia extraordinária e queria mostrar quem eu era de verdade para o mundo. Uma garota educada, inteligente, criativa, entre outras coisas, eu não aceitaria viver na sombra de ninguém. E foi quando precisei interromper bruscamente nossa amizade. É claro que continuamos amigas, mas de uma forma diferente. Arrumei novos amigos, amigos esses que me aceitava do jeito que eu era e eu nunca me senti tão livre e tão amada por mim mesma.

E por isso eu digo, ame quem tu és e não deixe ninguém te comparar, você é inigualável, um ser humano único. Por mais que as pessoas digam “você precisa seguir esse padrão”, na verdade você não precisa não, você não precisa fazer nada que você não sinta vontade e não deixe ninguém te convencer do contrário. Não deixe ninguém te dizer o que você tem que ser ou fazer. E eu sei que esse processo é extremamente doloroso, falo com experiência de causa, mas a descoberta de si própria é altamente gratificante.

E muita gente pode pensar, “Mas o que toda essa história tem a ver com o feminismo negro?”. E na verdade tem tudo a ver. Quantas meninas negras não sofrem pressão diariamente, a cada segundo de suas vidas para se encaixarem em padrões? A mídia ta aí,  tentando a todo custo nos enfiar guela abaixo meninas dentro do “padrão aceito” meninas que possuem características em comum com essa minha amiga: branca, de cabelo liso e olhos claros. E a conclusão que chego depois de passar por tudo isso, é que o AMOR PRÓPRIO e a ACEITAÇÃO são a nossas únicas armas nesse processo de libertação.

Esse texto demorou muito para sair, porque muita coisa estava entalada em minha garganta há muito tempo. E eu gostaria de tê-lo postado no dia da Consciência Negra, mas tinha muita coisa que eu ainda não havia conseguido digerir. E se você quiser conferir os outros textos, segue os links:

Bonecas de Nó Negras – Nanatrice

Empoderamento é aceitação e não seguir padrão – Blog da Taya

Porque precisamos do Feminismo Negro – Naturalíssimas

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O machismo de todos os dias


28.nov.15 | 1 Comentário

Toda vez que eu escrevo um texto, eu contrario a principal regra que uma professora de português me ensinou ainda no fundamental. Sempre gosto de pensar primeiro no título, porque a partir dele eu consigo desenvolver minha história. Isso pode não fazer sentido nenhum para alguns, mas para mim faz todo – e cada louco com sua mania, não é? Quando pensei em escrever este post, fiquei muito na dúvida se colocava o título que vocês estão vendo, ou “Inclusão, um papo sobre situações que você sofre, mas não sabe descrever”, ou algo parecido, mas acabei escolhendo o mais curto mesmo, pelo simples fato de ser mais inclusivo e objetivo, que é justamente o objetivo desse post.

Recentemente alguns termos – que confesso ter conhecido há pouco tempo – têm me chamado bastante atenção. Termos que por vezes não consigo pronunciar corretamente, por não ter um inglês fluente, mas que entendo muito bem o significado. E fiquei pensando em todas as mulheres que conhecem intimamente o significado de cada termo, mas não o conhece pelo mesmo motivo que eu não conhecia. A partir daí, pensei no quanto seria legal transformar esses termos complicados, em um dicionário feminista, com uma linguagem mais simples, objetiva e inclusiva para que todas as pessoas – até as que nunca ouviram falar sobre feminismo pudessem entender. Esses termos estão presentes no nosso cotidiano, enraizado no machismo de todos os dias.

ab

mo

hic

mp

pn

Esses cards me deram um trabalhão, mas fiquei muito orgulhosa do resultado final. Alguns termos foram traduzidos livremente, por não haver uma tradução literal. Para concluir este trabalho tive o apoio de duas queridonas: Letícia Cerqueira, dona do blog Naturalíssimas e a Vitória Lourenço, duas pretas super empoderadas que estão me ajudando muito nessa longa jornada que é a luta ~ diária ~ contra o patriarcado. Também utilizei o texto: “O machismo também mora nos detalhes”, do site Think Olga como referência e o dicionário feminista de um grupo maravilhoso do qual participo no facebook.

Podem usar os cards livremente, só peço que não retirem os créditos. E espero ter ajudado a quem tinha dúvida sobre alguns termos. E sinto muito por quem já passou por uma dessas situações – aliás, quem não passou?

Mulheres, só quero que saibam que vocês não estão sozinhas e que não ficaremos mais caladas.

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